NW PODCAST #28: Competências Ambientais – Análises de Cenários

É comum ver o produtor rural sendo autuado pelo mesmo fato por dois órgãos ambientais diferentes. Ao discorrer sobre o tema, no vigésimo oitavo episódio do NW Podcast, o sócio Dr. Marcel Daltro e o coordenador Dr. Fernando Prado conversam sobre a possibilidade desses desencontros nas autuações ocorrerem e também sobre as possíveis consequências apontando caminhos como possíveis soluções.

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Será o fim do IGP-M nos contratos de locação?

Artigo Publicado originalmente por Estúdio Folha

Por Dra. Ariane Vanço

No ano de 2020, o Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M), divulgado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), que é composto pelo Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), pelo Índice de Preços ao Consumidor (IPC) e pelo Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), tradicionalmente utilizado como indexador em reajustes anuais de aluguéis de imóveis, registrou alta acumulada de 23,14%.

As tentativas frustradas de negociação entre locador e locatário resultaram no aumento das arbitragens e na busca pela tutela jurisdicional, com intuito de modificar o índice e reequilibrar os contratos.

Recentemente, o Tribunal de Justiça de São Paulo concedeu duas liminares (tutela de urgência) para substituir o Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M) pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para fins de cálculo do reajuste anual dos aluguéis contratados.

Ambos os processos foram movidos contra um shopping center e continham pedido acerca do pagamento do 13º aluguel, prática comum neste tipo de locação. No primeiro processo, o desembargador Francisco Occhiuto Júnior suspendeu sua exigibilidade. No segundo, a desembargadora Rosangela Telles determinou que a parcela fosse calculada usando como base a média dos locativos pagos no último ano.

E neste cenário surgiram iniciativas de parte do setor imobiliário e de especialistas no assunto para que o IGP-M não seja mais utilizado como fator de correção dos contratos de locação imobiliária.

A alta desproporcional do índice foi influenciada pelo aumento de preços do combustível ao consumidor, pelo aumento do valor das commodities agrícolas brasileiras para exportação e pela desvalorização da moeda nacional, sem contar o nefasto resultado econômico decorrente da pandemia de Covid-19. Estes fatores tornam o índice mais volátil e não refletem a realidade do mercado imobiliário.

A rigor, a legislação brasileira permite a utilização de outros índices para corrigir os valores dos aluguéis. É comum em contratos corporativos a utilização de um índice misto para definir os reajustes.

Fato é que o aumento significativo do Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M) aliado aos impactos econômicos decorrentes das medidas de isolamento social decorridos da pandemia mundial de Covid-19 são argumentos suficientes para a revisão dos contratos, evitando a onerosidade excessiva e garantindo sua função social.

Importante destacar que as decisões favoráveis à substituição do índice ainda não foram pacificadas pelo Poder Judiciário e sua utilização deve ser definida após um parecer jurídico que contemple a análise de caso concreto.

NOVO ROL, VELHOS DESAFIOS PARA A SAÚDE SUPLEMENTAR

Por Dr. Diego Leite Paes

O Dia Mundial da Saúde, comemorado em 7 de abril, foi criado em 1948 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), buscando fomentar a promoção da saúde, reconhecendo-a como um direito fundamental da mais elevada relevância, ainda mais quando observamos o cenário atual de enfrentamento da Covid-19, em que a saúde se reveste da maior riqueza do indivíduo.

Para estruturar a garantia desse direito no Brasil, a Constituinte de 1988 adotou o modelo de coexistência entre os sistemas público e privado de saúde, de modo que, ante os déficits apresentados pelo sistema público, têm-se cada vez mais ampliado o espaço para atuação do setor privado de saúde, sendo este de adesão facultativa e não obrigatória, que se insere no contexto da ordem econômica e social, fundada na valorização do trabalho, da livre iniciativa e da livre concorrência.

Os temas que envolvem os direitos e obrigações dos usuários e das operadoras de planos de saúde, regidos principalmente pela Lei 9.656/98 e regulamentados por resoluções da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), tratam-se de matéria bastante delicada, por envolverem o direito fundamental à saúde ofertado em caráter complementar, através de contratos de natureza securitária.

Dentre um dos principais temas de judicialização da saúde suplementar na atualidade está a discussão da obrigatoriedade de cobertura de procedimentos, exames e medicamentos excluídos do Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde editado pela ANS.

Tem-se que o referido rol estabelece a cobertura mínima obrigatória a ser disponibilizada pelos planos, contemplando os procedimentos considerados indispensáveis ao diagnóstico, tratamento e acompanhamento de todas as doenças listadas na Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID).

Em análise realizada por Rafael Bobba, de 4.059 acórdãos exarados pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, 47,67% (1.935 casos) das demandas diziam respeito apenas à “exclusão de cobertura”, ligados à recusa dos planos na realização de certos procedimentos solicitados por médicos assistentes, o que demonstra a judicialização do tema.

A resolução de demandas dessa natureza levou, inclusive, o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo a editar a Súmula nº 102, em que “Havendo expressa indicação médica, é abusiva a negativa de cobertura de custeio de tratamento sob o argumento da sua natureza experimental ou por não estar previsto no rol de procedimentos da ANS”. Contudo, a matéria ainda está longe de ser um consenso no âmbito judicial, ainda mais quando consideramos as recentes divergências existentes perante as próprias turmas do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Para a 3ª Turma da referida Corte Superior, o rol é considerado meramente exemplificativo, sendo, assim, abusiva a negativa de tratamento não previsto pela ANS para enfermidade coberta pelo contrato do plano de saúde. Já a 4ª Turma iniciou uma divergência no final de 2019, ao considerar que o Rol é taxativo, de modo que é possível a negativa de procedimentos não inclusos pela ANS. Encontra-se atualmente pendente de julgamento recurso repetitivo afetado para uniformização dos entendimentos das turmas.

Na tentativa de resolução da problemática, antes mesmo de uma definição pelo STJ, a Diretoria Colegiada ANS aprovou, em fevereiro de 2021, a resolução normativa que atualiza o Rol de Procedimentos, acrescentando 69 novas coberturas obrigatórias às operadoras, resultado de um amplo estudo técnico de eficácia e impacto para o setor, além de expressamente reconhecer que o rol se configura como taxativo, entrando em vigor em 1º de abril.

O entendimento expressamente adotado pela Agência Reguladora prestigia a segurança jurídica e a própria manutenção do setor de saúde suplementar, na medida que fixa textualmente os limites dos procedimentos e eventos em saúde que deverão ser oferecidos pelas operadoras. Contudo, apesar da importante atualização, os desafios relacionados ao tema seguem inalterados.

Um dos pontos comumente desconsiderado pelo judiciário e os próprios consumidores é o modo de financiamento do setor de saúde suplementar, baseado no mutualismo, através do compartilhamento dos ônus dos sinistros, onde ocorre a partilha entre todos os integrantes de uma determinada carteira de beneficiários, dos custos dos atendimentos necessários por aqueles, por meio do pagamento das mensalidades, tornando possível a assistência dos que necessitem.

Os valores das mensalidades ou contribuições pagos pelos beneficiários estão diretamente ligados aos custos projetados para atendimento daquela massa de usuários, de modo que os procedimentos não previstos no rol de eventos da ANS e nos contratados não são incluídos nos cálculos e projeções atuariais realizados pelos profissionais por não ser possível sua mensuração, não só devido à amplitude, mas por tratar-se também de novas tecnologias não difundidas. Não há como precificar um risco que não se conhece e que não tem limites, como ocorreria se o rol da ANS fosse apenas exemplificativo.

Entregar assistência integral de procedimentos incertos e não cobertos tem o condão de desequilibrar o cálculo atuarial montado para aquela carteira de clientes, o que pode acarretar o aumento do preço para todos os demais beneficiários, excluindo cada vez mais pessoas do acesso aos serviços de saúde suplementar, além de padronizar todos os planos de saúde, desprestigiando principalmente os planos de pequeno e médio portes, e, consequentemente, interver na concorrência do mercado.

Todo o exposto aponta para o fato de que por mais que grande parte das discussões hoje empregadas exponham apenas os aspectos médicos, há muito mais questões a serem analisadas para efeito de uma imposição de cobertura e ampliação dos procedimentos descritos no rol.

A questão não pode ser analisada apenas sob a ótica de eventual divergência sobre a efetividade de determinado tratamento prescrito por um médico assistente, devendo ser levada em consideração também a necessidade de uma avaliação técnica a respeito dos impactos provocados, seja na própria relação contratual deduzida em determinado caso, seja no setor de saúde suplementar como um todo.

Neste contexto de incertezas, o papel da ANS toma maior relevância, uma vez que é a agência ligada ao poder executivo responsável pela definição das políticas públicas de saúde suplementar, possuindo o papel de demonstrar à sociedade que o rol por ela elaborado, considerado como taxativo, possui os procedimentos aptos a tratar as doenças existentes, além de trazer segurança e contemporaneidade, uma vez que compreender o rol como exemplificativo esvaziaria o próprio propósito da Agência Reguladora, perdendo sentido todo processo técnico empregado para sua elaboração.

O autor:

Dr. Diego Leite Paes é  advogado do Núcleo de Processos Estratégicos e de Saúde Suplementar no NWADV São Luís/MA.

Por que as mulheres foram as mais atingidas pelo coronavírus

POR DR. NELSON WILIANS

Publicado originalmente na edição do dia 30/03/21 da Forbes Brasil

Desde março de 2020 convivemos com o fardo mortal da pandemia do coronavírus. De lá para cá, muita coisa mudou. As relações de trabalho, as relações sociais, a economia, os cuidados com a saúde etc. etc. etc. São tantas as mudanças, que tenho “dificuldade em admitir que agora tenho muito a admitir”, como bem observou o escritor inglês Alain de Botton.

A pandemia ficará para a história, com certeza.

Mas o que me causa ansiedade são as consequências para as próximas décadas com decisões tomadas hoje, muito além do alívio com as vacinas, da tristeza e do mar de emoções que sentiremos sobre este período nebuloso e permeado por uma incerteza atroz.

O fato é que estamos em uma encruzilhada, escolhendo caminhos que podem não ter retorno.

Com a capa dessa edição da Forbes, fui olhar um relatório norte-americano, produzido pelo LeanIn.Org, em parceria com a consultoria empresarial McKinsey: Mulheres no Local de Trabalho 2020.

O relatório revela que as mulheres foram extremamente impactadas pela crise, especialmente as mulheres negras, com a maior probabilidade de terem sido demitidas ou dispensadas durante a crise da Covid-19.

De acordo com informações do levantamento, isso é mais preocupante do que se imagina, levando-se em consideração que, entre janeiro de 2015 e janeiro de 2020, a representação de mulheres em cargos de vice-presidente sênior havia crescido de 23% para 28%, e a representação na diretoria havia passado de 17% para 21%. Portanto, nota-se que as mulheres continuaram subrepresentadas, mas os números melhoraram lentamente.

O relatório mostra ainda que mais de uma em cada quatro mulheres está considerando o que era impensável há apenas seis meses: mudar de carreira ou deixar o mercado de trabalho por completo. Com isso, as empresas correm o risco de perder mulheres na liderança e de ver naufragar anos de árduo progresso em direção à diversidade de gênero.

Guardadas as diferenças com o mundo corporativo americano e o mercado de trabalho feminino de lá, esse quadro é uma realidade possível em nosso país – não só pelas demissões como pela dupla jornada em um período em que escolas e creches estão fechadas.

Segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), de novembro passado, 897,2 mil trabalhadores perderam o emprego de março a setembro de 2020, em função da pandemia e do isolamento social, sendo 588,5 mil mulheres, ou seja, 65,6% dos demitidos.

Diante desta constatação de que as mulheres foram as mais atingidas, fica clara uma das razões da dispensa do trabalho: elas são maioria nas atividades mais prejudicadas pela crise, como o setor de serviços. Entre outras questões, além dos efeitos da reestruturação e da automação nas empresas que reduziram postos de trabalho, as mulheres têm que enfrentar uma dificuldade que causa mais angústia: a dificuldade em reorganizar o esquema doméstico, sobretudo as que têm filhos e estão sem a opção de deixá-los nas escolas fechadas pela pandemia.

A boa notícia contida no próprio relatório é que a crise representa uma oportunidade. Se as empresas fizerem investimentos significativos na construção de um local de trabalho mais flexível e empático (há sinais de que isso esteja começando a acontecer), elas podem reter as funcionárias mais afetadas pela crise, criando um ambiente em que tenham oportunidades iguais.

Recentemente o INW (Instituto) organizou um encontro virtual com uma consultoria organizacional de diversidade de gênero para treinar nossos diretores a desarmar esses possíveis efeitos dentro de nossas empresas.

O momento é difícil, sem dúvida, ainda mais porque precisamos decidir sob o efeito de uma grave crise de saúde, que também trouxe efeitos nefastos na economia mundial. Mas, como ressaltei, precisamos produzir anticorpos para que esse efeito seja minimizado para evitar que as desigualdades não se aprofundem ainda mais no futuro.

Nelson Wilians é CEO da Nelson Wilians Advogados

Juízo individual ou coletivo: consequências históricas

Por André Menescal*

Artigo publicado originalmente pelo Estúdio Folha

Em tempos de comoção política, o poder do Judiciário ganha um apelo extraordinário. Dele precisam sair soluções inéditas, interpretações arrojadas e vozes de paz. Tamanha responsabilidade não foi talhada à caneta de um só homem ou mulher.

O Supremo Tribunal Federal vive hoje uma questão que precisa ser debatida: a das vozes singulares que se pretendem mais fortes do que as coletivas — uma tendência arriscada por seus efeitos diretos, casos julgados pelo próprio Supremo, e indiretos, estabelecidos por cada juiz brasileiro, quando se arvora da palavra final em matérias de educação, saúde pública, liberdades individuais.

Em “I Dissent”, obra sobre a história da Suprema Corte americana, o autor Mark Tushnet, professor de Harvard, analisa os votos divergentes proferidos por juízes da Suprema Corte durante julgamentos que marcaram a evolução dos Estados Unidos como nação.

Temas como a igualdade racial (Dred Scott v. Sandford), a constitucionalidade de leis regulando condições de trabalho (Lochner v. New York) e a liberdade de decisão quanto ao uso de métodos contraceptivos (Griswold v. Connecticut) são ali objeto de reflexão histórica e nos ajudam a entender o tamanho da influência que a jurisprudência de um Tribunal Constitucional exerce sobre a sociedade.

Além de analisar os fundamentos que permearam os votos dissidentes dos mais famosos casos já julgados pela Suprema Corte, Tushnet avalia quais teriam sido os impactos para a sociedade se a divergência aberta houvesse liderado uma maioria.

Impossível não lembrar que, no Brasil, este não é um exercício hipotético, guardado às obras como a de Tushnet. A definição de temas relevantes, por vontade individual de algum ministro, se dá a cada dia, ferindo aos poucos o potencial existente, para a sociedade brasileira, de levar tais provocações à deliberação do colegiado.

A cada decisão individual com impacto desproporcional na vida dos brasileiros, entorta-se um pouco o leme da História, que passa a ter seus capítulos ilustrados não pelo que uma maioria discutiu e decidiu, mas pelo que um cidadão, investido na condição de ministro, quis deixar à memória de nossas gerações futuras.

Talvez a publicidade das atividades do Supremo, à qual o brasileiro médio já se habituou, seja nessa trama uma aliada infiel: ao tempo em que trouxe visibilidade de como agem os mais poderosos juízes do país, transformou paulatinamente o tribunal em palco, fazendo de algumas decisões não mais a aplicação do Direito aos fatos, mas a submissão destes fatos àquilo que as circunstâncias exigirem.

Interessa à democracia brasileira que fiquem reservadas à vida acadêmica as opiniões individuais que não tenham sofrido o crivo dos pares. Posicionamentos isolados podem ser importantes como exercício retórico, mas raramente representam a melhor aplicação do Direito ou da Justiça. O mundo real necessita de decisões firmes, mas não sem uma boa dose de consciência e responsabilidade.

*André Menescal é especialista em Direito Corporativo e sócio do Nelson Wilians Advogados