Será o fim do IGP-M nos contratos de locação?

Artigo Publicado originalmente por Estúdio Folha

Por Dra. Ariane Vanço

No ano de 2020, o Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M), divulgado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), que é composto pelo Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), pelo Índice de Preços ao Consumidor (IPC) e pelo Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), tradicionalmente utilizado como indexador em reajustes anuais de aluguéis de imóveis, registrou alta acumulada de 23,14%.

As tentativas frustradas de negociação entre locador e locatário resultaram no aumento das arbitragens e na busca pela tutela jurisdicional, com intuito de modificar o índice e reequilibrar os contratos.

Recentemente, o Tribunal de Justiça de São Paulo concedeu duas liminares (tutela de urgência) para substituir o Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M) pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para fins de cálculo do reajuste anual dos aluguéis contratados.

Ambos os processos foram movidos contra um shopping center e continham pedido acerca do pagamento do 13º aluguel, prática comum neste tipo de locação. No primeiro processo, o desembargador Francisco Occhiuto Júnior suspendeu sua exigibilidade. No segundo, a desembargadora Rosangela Telles determinou que a parcela fosse calculada usando como base a média dos locativos pagos no último ano.

E neste cenário surgiram iniciativas de parte do setor imobiliário e de especialistas no assunto para que o IGP-M não seja mais utilizado como fator de correção dos contratos de locação imobiliária.

A alta desproporcional do índice foi influenciada pelo aumento de preços do combustível ao consumidor, pelo aumento do valor das commodities agrícolas brasileiras para exportação e pela desvalorização da moeda nacional, sem contar o nefasto resultado econômico decorrente da pandemia de Covid-19. Estes fatores tornam o índice mais volátil e não refletem a realidade do mercado imobiliário.

A rigor, a legislação brasileira permite a utilização de outros índices para corrigir os valores dos aluguéis. É comum em contratos corporativos a utilização de um índice misto para definir os reajustes.

Fato é que o aumento significativo do Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M) aliado aos impactos econômicos decorrentes das medidas de isolamento social decorridos da pandemia mundial de Covid-19 são argumentos suficientes para a revisão dos contratos, evitando a onerosidade excessiva e garantindo sua função social.

Importante destacar que as decisões favoráveis à substituição do índice ainda não foram pacificadas pelo Poder Judiciário e sua utilização deve ser definida após um parecer jurídico que contemple a análise de caso concreto.

O Direito de Família e os reflexos advindos da pandemia

Por Dra. Carolina Bassetti de Oliveira

O Direito de Família estabelece e regula as normas da convivência familiar, sempre visando a proteção da família e buscando solucionar os problemas que surgem dessas relações. É o ramo do direito que não somente interfere diretamente na formação da sociedade, como também é o próprio reflexo desta.

Com as novas situações que surgem com o desenvolvimento de uma sociedade, se faz necessário que o Direito de Família acompanhe essas evoluções e traga um respaldo jurídico para as entidades familiares, e não diferente a isso, é o que se espera do Judiciário em relação às questões advindas com a pandemia.  

Sem jurisdição formada e tendo o isolamento social como a principal recomendação para conter o avanço da Covid-19, os magistrados estão encarando questões delicadas em relação ao direito de visitas e de guarda de filhos, sem contar o aumento dos pedidos de divórcio.

Ante a falta de previsão legal para as questões de guarda e de visitas dos filhos, os tribunais estão decidindo com base no melhor interesse da criança ou do adolescente. Em casos que tenha algum tipo de risco ao menor, a visita do(a) genitor(a) pode ser suspendida de forma temporária e transitória. A guarda também pode ser alterada de forma temporária, caso o genitor que a detenha exerça alguma atividade de risco. Nestes casos, o recomendado é que haja oportunamente uma compensação quanto ao tempo de afastamento, e que o(a) genitor(a) mantenha contato frequente com o filho por ligação e/ou videochamada, evitando-se uma fragilização do vínculo afetivo.

Contudo, não havendo fatores relevantes de risco aos menores, as visitas e a manutenção da guarda devem permanecer inalterados, mas sempre com muita responsabilidade e consciência por parte dos genitores ou responsáveis para evitar qualquer contágio dos menores.

Ademais, em tempos de impossibilidade de audiências presenciais e do aumento dos conflitos matrimoniais, uma prática adotada há algum tempo por alguns juízes no Brasil e que vem neste momento de pandemia apresentando um grande crescimento, é a concessão de divórcio judicial por meio de liminar, com base em pedido unilateral de um dos cônjuges, visando uma tutela jurisdicional mais célere e efetiva.

Fato é que a atual crise mundial sanitária decorrente da pandemia causada pela covid-19, além de impactar diretamente nas relações familiares, vem gerando inúmeros reflexos no Direito de Família, principalmente pela ausência de regulamentação para determinadas situações antes não enfrentadas pela sociedade e muito menos pelo Judiciário.

A autora:

Dra. Carolina Bassetti de Oliveira é sócia do NWADV e especialista em Direito de Família, Sucessões e Planejamento Patrimonial.

As Indicações Geográficas e o Processo de Comoditização da Economia Internacional

O marco legal no Brasil das indicações geográficas é a Lei de Propriedade Industrial (LPI), que incorpora no direito pátrio os standards estabelecidos para os países membros da OMC. Desde a adesão ao Acordo TRIPS/OMC, os estados-partes da Organização estão obrigados a proteger as “identificações” que individualizam e distinguem um produto como originário do território de um estado parte, região ou localidade deste território, quando determinada qualidade, reputação ou outra característica do produto seja essencialmente atribuída à sua origem.

As indicações geográficas famosas incluem, por exemplo: Bayerisches Bier, Champagne, Irish, Whiskey, Azeitonas Kalamata, Parmigiano Reggiano, Vodka Polaco, Queso Manchego, Roquefort, dentre outros produtos.

No Brasil, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) concede o registro legal necessário para que se possa gozar dos direitos de exclusividade sobre as Indicações Geográficas (IG). Os requisitos estão dispostos na Instrução Normativa (nº95/2018).

Tendo em vista as características geográficas, ambientais e etnoculturais, dentro de um ambiente abundante em biodiversidade, o legislador brasileiro distingue as IG em: (i) Indicação de Procedência (IP) e (ii) Denominação de Origem (DO). E o faz com vistas a uma melhor e mais eficiente proteção desse patrimônio nacional.

A indicação de procedência (IP) é o nome geográfico de país, cidade, região ou localidade de seu território, que se tenha tornado conhecido como centro de extração, produção ou fabricação de determinado produto ou de prestação de certo serviço. A denominação de origem (DO) é também o nome geográfico de país, cidade, região ou localidade de seu território, que designe, especificamente, um produto ou serviço cujas qualidades ou características se devam exclusiva ou essencialmente ao meio geográfico, incluídos fatores naturais e humanos.

São algumas das IG, protegidas no Brasil, como IP e DO, apenas a titulo de exemplificação: “Vale dos Vinhedos” para vinho; “Goiabeiras” para artesanato; “Cerrado Mineiro” para café, “Canastra” para queijo, “Divina Pastora” para rendas, “Franca” para calçados, “Linhares” para cacau, “Salinas” para aguardente etc.

Certamente, o manejo dos direitos sobre os sinais distintivos, como das marcas, nominativas, mistas, coletivas e de certificação, assim como das indicações geográficas é muito importante porque, enquanto sinais externos, comunicam ao mundo que certa região se especializou e tem capacidade de produzir um bem ou prestar um serviço diferenciado e de excelência.

O processo de comoditização da economia, isto é, da globalização dos mercados, tem imprimido um ritmo crescente na homogeneização de produtos e serviços, frente às necessidades de padrões de qualidade reconhecíveis e garantidos para mercados distantes e diversos.

A diferenciação é a principal característica para a formação de uma identidade no imaginário do consumidor. A maior individualização do produto é fator fundamental para atrair o consumidor, fidelizá-lo e abrir mercados, tanto doméstico quanto internacional.

É inegável que há, ultimamente, uma forte demanda e preferência dos consumidores por produtos diferenciados, oriundos de processos sócio e ambientalmente orientados e saudáveis, incorporando novos sabores e técnicas de saber e fazer sustentáveis, que traduzem atributos intangíveis, como história, cultura e tradições.

Os países desenvolvidos investem massivamente em políticas públicas voltadas às IG. Possuem, portanto, grande potencial de diferenciação de produtos e valorização das suas origens, por suas características edafoclimáticas (clima e solo) diferenciadas, assim como por seus diversos ecossistemas, tradições e uma rica cultura, que se refletem em produtos específicos. Bom exemplo é o “Champagne”, produzido no nordeste da França, na região de Champagne, a base de vários tipos de uvas plantadas naquele solo específico.

Existem cerca de 10 mil indicações geográficas reconhecidas, hoje, no mundo, boa parte de países desenvolvidos.

O reconhecimento de indicações geográficas nos países em desenvolvimento ainda é pequeno e precisa ser mais difundido e cultuado, haja vista o grande potencial em várias cadeias produtivas, especialmente no setor agroalimentar. Com o domínio de grandes cadeias de varejo, a presença de pequenos produtores só se viabiliza a partir da diferenciação e diversificação de seus produtos e dos seus canais de venda.

Nesse contexto, as indicações geográficas tornam-se fontes potenciais de vantagens competitivas para seus produtores, especialmente pequenas e médias empresas.

No caso do Brasil, em termos socioeconômicos, sabe-se que possui população de mais de 200  milhões de habitantes, com uma classe média promissora e segmentos de renda com tendência de crescimento, portanto, um mercado doméstico de grandes proporções.

A grande extensão territorial e a diversidade de biomas, bem como as características étnicas da população, favorecem a diversidade de produtos, o cultivo dos elementos culturais, e o sabor específico, possibilitando, assim, a diferenciação dos produtos e serviços brasileiros nos mercados interno e internacional.

Como se vê, o reconhecimento e uma mais eficiente proteção dos direitos de propriedade intelectual, dentre os quais as indicações geográficas, dada a complexidade dos desafios, exigem imediatas iniciativas e políticas de caráter sistêmico e complementares, que foquem as cadeias produtivas, com vistas a reduzir a passividade dos produtores, afinar a sintonia na construção de padrões de qualidade, estabelecer demandas de mercado e, acima de tudo, reduzir as imperfeições de mercado e estimular o desenvolvimento de um ambiente de cooperação, por meio de plataformas comuns, capazes de agregar valor ao produto e facilitar a penetração em mercados de qualidade.

Alianças verticais e horizontais, entre os setores público e privado, têm potencial de reduzir os custos de transação, aumentar a confiança, aprendizagem, inovação e a formação de capital social.

Ademais dessas medidas de caráter interno, doméstico, é fundamental para a inserção das indicações geográficas brasileiras no mercado internacional a adesão do Brasil à União de Lisboa, criada em 1958 pelo Acordo de Lisboa, revisto em Estocolmo em 1967 e administrado pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI/WIPO). A União de Lisboa instituiu um sistema internacional que facilita o reconhecimento e a proteção das indicações geográficas por meio de um processo único, com formalidades e custos reduzidos, além de um mecanismo de controle de acompanhamento altamente dinâmico, inclusivo e seguro.

Os caminhos e desafios que se apresentam ao Brasil, no que tange às indicações geográficas, são inúmeros, mas devem ser sopesados e enfrentados, frente ao potencial que possuem, tanto de inserção mercadológica, como também pela consequente valorização das nossas características geográficas, ambientais e etnoculturais.

Artigo da Dra. Maristela Basso – Na Pauta Online

A Lei Gravada em Pedra – Forbes

Getty Images/ Forbes

A noção de justiça tem exercido papel importante na história da humanidade. Os gregos orgulhavam-se da sua liberdade que, em parte, se refletia no fato de apenas obedecerem a uma lei igual para todos. De maneira geral e de forma simplificada, isso ainda acontece. Os Poderes Públicos são responsáveis pela estabilidade da democracia na medida em que há um equilíbrio de forças entre eles. Um cuida do outro para a equidade de todos.

E isso nos leva ao suposto protagonismo do Judiciário, principalmente do STF. Exageros e interesses à parte, não entendo que isso realmente esteja acontecendo na proporção e na dimensão dos chororôs que ressoam em alguns cantos. Entendo, sim, que o Judiciário está sendo chamado à responsabilidade para exercer seu papel de controle externo diante do gigantismo dos outros Poderes. Mais que isso: está sendo convocado a se pronunciar em inúmeras demandas de natureza política que têm desaguado, sobretudo, na Suprema Corte. Esse chamamento colocou os holofotes sobre o STF, especialmente em questões que envolviam políticos. O fenômeno vem ocorrendo desde o Mensalão, quando os brasileiros começaram a acompanhar pela TV o desenrolar do processo que envolvia diversos figurões do cenário nacional.

Obviamente, existe a preocupação de um Poder não se sobrepor a outro. O Judiciário deve respeitar seus limites de julgamento para não usurpar ou invadir a competência dos demais. Mas, até aqui, vejo o Judiciário exercendo efetivamente sua missão – e algo diferente é exceção à regra. Pode-se, obviamente, concordar ou não com as decisões proferidas. Mas não se pode, de forma genérica, dizer que ele está praticando o chamado ativismo judicial, determinando medidas a serem observadas por outros Poderes.

O Judiciário está respondendo às demandas atuais do mundo real. Recentemente, dois casos ruidosos chegaram às portas do STF: o relatório antifascismo, que envolveu o Ministério da Justiça, e a anulação de uma sentença condenatória contra Paulo Roberto Krug proferida por Sergio Moro, que era então juiz titular da 2ª Vara Criminal de Curitiba, no âmbito do caso conhecido como “escândalo do Banestado”. Só para citar dois temas que despertaram opiniões acaloradas dentro e fora dos tribunais e colocaram novamente a Suprema Corte no epicentro das atenções.

Há outros casos estrepitosos que envolvem o Legislativo e o Executivo. O desafio é julgar dentro da melhor técnica jurídica e das garantias constitucionais, opondo-se à pressão da sociedade quando necessário. Isso é fundamental para a segurança jurídica e para que o sistema judicial brasileiro ande nos trilhos. Aliás, foi esse o filme que acabamos de ver na Lava Jato, com a revelação de que alguns dos principais atores protagonizaram cenas de desrespeito ao devido processo legal, para o alívio de um batalhão de pessoas do outro lado: advogados de defesa, parte do próprio Ministério Público, políticos e empresários emaranhados de alguma forma na operação.

Metamorfoseando o pensamento utópico, lamentavelmente o desejo de combater a corrupção levou a uma ficção jurisdicional que jogou no lixo as potencialidades do processo e o sonho de superar a realidade imediata. Isso não é tolerável. Vale lembrar novamente os gregos que, sob a coordenação dos Nomothetai, gravaram suas leis na pedra. Valia o que estava escrito – para todos.

Nelson Wilians é CEO da Nelson Wilians & Advogados Associados

Artigo publicado na Forbes Brasil – Setembro 2020