TERCEIRO SETOR – ASPECTOS DA INAFASTABILIDADE DO ACESSO À JUSTIÇA COM ENFOQUE NO DIREITO DO TRABALHO

Por Dra. Marjorie Ferreira Leles

Atualmente o Terceiro Setor emprega milhares de pessoas em todo o país, seja na educação, saúde, meio ambiente, entre outras diversas áreas.

Nesse sentido, é de suma importância que essas entidades se atentem à legislação trabalhista, com o fito de conhecer suas peculiaridades quando relacionadas às entidades filantrópicas e entidades sem fins lucrativos.

Sabemos que inexiste diferenciação das obrigações trabalhistas dos empregadores, independentemente se estes são empresas, organizações sem fins lucrativos ou entidades filantrópicas, sendo que, em todos os casos, devem obedecer a Consolidação das Leis do trabalho.

Porém, existem pontos importantes na esfera trabalhista a serem considerados pelas organizações privadas sem fins lucrativos trazidos pela reforma trabalhista os quais serão brevemente pontuados.

O Terceiro Setor é formado por organizações privadas sem fins lucrativos que exercem atividades de grande interesse social, atuando em áreas de extrema importância para sociedade.

Essas organizações, fundações e associações prestam um serviço à sociedade que deveria ser desempenhado pelo Estado, mas inúmeras vezes não é executado, e quando é feito é realizado de maneira deficiente.

Mesmo que essas entidades desempenhem esse papel de interesse público, regra geral, a legislação trabalhista deve ser obedecida da mesma forma, tanto para organizações sem fins lucrativos como para empresas, ou seja, inexiste diferença de direitos de um trabalhador que seja empregado em uma entidade beneficente ou de um trabalhador que trabalhe em uma empresa com fins lucrativos.

Portanto, as obrigações trabalhistas de uma entidade não são diferentes das obrigações trabalhistas de uma empresa.

Vale pontuar, porém, que a reforma trabalhista trouxe algumas novidades no que diz respeito a essas entidades as diferenciando em alguns aspectos das empresas que possuem finalidade lucrativa, diferenças essas as quais são de suma importância para efetividade ao acesso à justiça dessas instituições, vejamos:

A primeira novidade de suma importância foi relativa aos depósitos recursais.  Antes da reforma trabalhista, assim como qualquer empresa, a entidade deveria quitar integralmente o valor do depósito recursal caso tivesse interesse em recorrer da sentença ou acórdão proferido.

Sendo assim, se a sentença ou acórdão fosse desfavorável à entidade e ela não tivesse condições de arcar com os valores de depósitos recursais, esta se via refém da decisão e sem meios financeiros para recorrer.

Sabe-se que os valores para depósito judicial são potencialmente altos, o que dificultava muito, principalmente para entidades de pequeno porte que não conseguiam arcar com o custo elevado e não tinham outra opção senão aceitar a decisão desfavorável sem apresentação de recurso.

Assim, umas das modificações mais importantes trazidas pela reforma trabalhista para essas organizações, foi a alteração do §9º e §10º do Artigo 899 da CLT. Vejamos:

Art. 899 – Os recursos serão interpostos por simples petição e terão efeito meramente devolutivo, salvo as exceções previstas neste Título, permitida a execução provisória até a penhora.     

§ 9o O valor do depósito recursal será reduzido pela metade para entidades sem fins lucrativos, empregadores domésticos, microempreendedores individuais, microempresas e empresas de pequeno porte. (Grifo nosso).          

§ 10.  São isentos do depósito recursal os beneficiários da justiça gratuita, as entidades filantrópicas e as empresas em recuperação judicial. (Grifo nosso). 

Veja-se que o texto legal trouxe uma diferenciação no que se refere a entidades sem fins lucrativos e entidades filantrópicas. De forma que, entidades sem fins lucrativos devem efetuar o pagamento do depósito recursal pela metade, enquanto entidades consideradas filantrópicas foram isentas totalmente desse pagamento.

Salienta-se que existem grandes discussões sobre o conceito de filantropia mas, regra geral, a diferença mais aceita na prática e que tem servido como embasamento para que os juízes isentem a entidade do pagamento do depósito recursal, ou seja, para que considere a entidade como filantrópica, é o fato desta ter uma atuação inteiramente gratuita no desempenho de suas atividades.

Sendo assim, em regra, considera-se entidade beneficente aquela que atua em favor da sociedade, e pode ser remunerada por seus serviços de alguma forma, mesmo que essa remuneração sirva apenas para investir na própria instituição, ou seja, não tenha finalidade ligada ao lucro.

Já a entidade considerada filantrópica tem a mesma finalidade da entidade beneficente, porém não cobra nenhum valor pelos serviços que presta.

Hoje o judiciário tem aceito a apresentação do CEBAS (Certificado de Entidades Beneficentes de Assistência Social) como meio de prova de filantropia e consequentemente tem dado o direto a essas entidades de isenção do pagamento de depósito recursal. Porém, caso a instituição não possua a mencionada certificação, a filantropia pode ser discutida.

Outra novidade de suma importância trazida pela reforma trabalhista, também baseada no princípio da inafastabilidade do acesso a justiça, foi o § 6º do artigo 884 da CLT que isentou as entidades filantrópicas de garantirem a execução para apresentarem embargos à execução, vejamos o texto legal:

Art. 884 – Garantida a execução ou penhorados os bens, terá o executado 5 (cinco) dias para apresentar embargos, cabendo igual prazo ao exequente para impugnação.  

§ 6o A exigência da garantia ou penhora não se aplica às entidades filantrópicas e/ou àqueles que compõem ou compuseram a diretoria dessas instituições.

Antes dessa inovação, para que as entidades pudessem recorrer na fase de execução elas teriam necessariamente que garantir a execução com bens ou pagamento dos valores supostamente devidos, como qualquer empresa. Porém, atualmente, essa garantia não é mais exigida para as entidades filantrópicas.

Sendo assim, as entidades filantrópicas poderão recorrer da decisão do juízo, também na fase de execução, sem garantir os valores devidos, o que anteriormente era inadmissível.

Ambas as modificações legais citadas, foram baseadas no inciso XXXV do art. 5º da Constituição Federal da República Federativa do Brasil de 1988, que prega que a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito, assegurando a inafastabilidade da jurisdição ou do acesso à Justiça.

Diante dessas breves considerações, resta claro que a simples reforma do texto legal permitindo que essas instituições pudessem apresentar suas razões de inconformidade sem antecipação de valores, foi de suma importância para que as organizações privadas sem fins lucrativos que antes se viam prejudicadas pela falta de recursos financeiros, tivessem maior acesso à justiça.

Dra. Marjorie Ferreira Leles é advogada especialista em Direito do Trabalho e atua no Núcleo Terceiro Setor, no NWADV Belo Horizonte/MG.