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(Português) FIAGRO como alternativa de funding e organização patrimonial: as dores que travam o agro

 
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O agronegócio brasileiro convive com um paradoxo estrutural. É um dos setores mais produtivos da economia e, ao mesmo tempo, um dos mais pressionados por capital, governança e organização patrimonial. Safra exige antecipação de insumos. Expansão exige investimento antes do retorno. Sucessão exige planejamento antes do conflito. O ciclo financeiro, patrimonial e sucessório quase nunca acompanha o ciclo produtivo.

O tempo do agro é imediato. O tempo do crédito, da governança e da sucessão, nem sempre.

É nesse desalinhamento que muitos negócios sólidos, rentáveis e tecnicamente eficientes acabam enfrentando gargalos de crescimento — não por falta de mercado ou de demanda, mas por falta de funding estruturado, previsível e alinhado à lógica patrimonial do negócio.

Nos últimos anos, o FIAGRO passou a ser apresentado como uma alternativa relevante para esse cenário. Ainda assim, na prática, grande parte de produtores, agroindústrias e gestores financeiros segue hesitante em utilizá-lo. E essa resistência raramente está na complexidade jurídica do instrumento. Ela nasce de dúvidas mais profundas, muitas vezes silenciosas, que envolvem controle, sucessão, exposição patrimonial e governança familiar.

Quando observamos as perguntas mais recorrentes sobre o tema, o que aparece não é apenas busca por conceito técnico, mas insegurança para decidir. O receio não é apenas trocar o modelo bancário por outro instrumento financeiro, mas mudar a forma como o patrimônio produtivo se relaciona com o capital.

FIAGRO não é só uma sigla — é uma decisão estrutural

Para muitos empresários do agro, o FIAGRO ainda é percebido como mais uma sigla do mercado financeiro, misturada a FII, FIDC, FIP, CRA, LCA e outros instrumentos que parecem semelhantes à primeira vista. Quando tudo soa complexo demais, a decisão é adiada. Não por falta de capacidade técnica, mas por falta de segurança estratégica para comparar.

Sem clareza sobre quando o FIAGRO é mais eficiente do que o crédito bancário — e, sobretudo, sobre como ele impacta o patrimônio, a sucessão e a governança familiar — o gestor tende a permanecer no caminho conhecido, mesmo que ele seja mais caro, mais curto ou mais restritivo.

A inércia, nesses casos, pesa mais do que a estratégia. E o custo aparece no crescimento que deixa de acontecer, na sucessão que não é planejada e no patrimônio que segue excessivamente exposto.

Funding real: o dinheiro chega quando precisa e sem comprometer o patrimônio?

Existe uma confusão recorrente entre “produto financeiro” e “fonte de capital”. Parte do mercado ainda enxerga o FIAGRO apenas como um ativo de investimento listado em bolsa. Para quem está do outro lado da operação, a pergunta é objetiva: isso efetivamente coloca dinheiro no caixa no momento certo — sem comprometer o patrimônio familiar?

O agro trabalha com prazos concretos. Fertilizante precisa ser comprado hoje. O custeio precisa ser viabilizado antes da colheita. Oportunidades de expansão não esperam meses por aprovação de crédito. Mas há uma camada adicional muitas vezes ignorada: até que ponto o funding tradicional exige garantias pessoais, avais e compromissos que misturam patrimônio da família com o risco operacional do negócio?

Quando bem estruturado, o FIAGRO permite separar essas esferas. Ele pode funcionar como um mecanismo de financiamento que organiza o risco dentro da operação, preservando o patrimônio pessoal e criando fronteiras claras entre empresa, família e investidores.

Risco, controle e sucessão: o medo que não aparece no balanço

Sempre que surge uma alternativa fora do modelo bancário tradicional, surge também a sensação de perda de controle. As perguntas se acumulam: quem assume o risco de crédito? O que acontece se o mercado oscilar? Como ficam as garantias? Quem decide? Quem responde? No fundo, não é apenas um medo financeiro. É patrimonial, sucessório, reputacional e jurídico.

Em empresas familiares do agro, decisões de crédito mal estruturadas costumam gerar efeitos colaterais relevantes: conflitos entre gerações, dependência excessiva dos sócios fundadores, exposição pessoal em garantias e dificuldade de transição para a próxima geração.

O crédito bancário pode ser caro e burocrático, mas é conhecido. O desconhecido, por mais eficiente que pareça, gera cautela. Por isso, no FIAGRO, mais importante do que o instrumento é o desenho jurídico, a governança do fundo e a modelagem da relação entre família, empresa e capital. É isso que diferencia uma solução estratégica de uma fonte de risco mal endereçado.

Tributação, retorno líquido e eficiência patrimonial

Outro ponto decisivo é a eficiência econômica real. Muito se fala sobre benefícios fiscais e isenções, especialmente para investidores pessoa física. Mas gestores experientes sabem que incentivo tributário isolado não sustenta tese financeira.

A pergunta central nunca é “tem isenção?”, mas: qual é o retorno líquido, o custo efetivo do capital e o impacto patrimonial depois de todos os riscos, garantias e estruturas envolvidas?

Funding eficiente é aquele que melhora a estrutura de capital do negócio, alonga prazos, reduz custo médio e, ao mesmo tempo, organiza o patrimônio e prepara o negócio para o futuro, inclusive do ponto de vista sucessório.

FIAGRO versus banco: uma falsa dicotomia

Quase toda análise termina na mesma mesa de comparação: FIAGRO ou banco? O banco segue sendo o padrão histórico — relacionamento consolidado, caminho mais óbvio, ainda que caro e restritivo. Ele oferece segurança psicológica, mas cobra isso em garantias, covenants e dependência.

O FIAGRO não nasce para substituir integralmente o crédito tradicional. Ele nasce para diversificar fontes, reduzir dependência bancária e criar uma arquitetura financeira mais madura, compatível com empresas que já ultrapassaram a fase do improviso.

Muitas vezes, a vantagem não está em trocar um pelo outro, mas em combinar instrumentos de forma inteligente. Quando o capital deixa de vir de uma única porta, o poder de negociação muda, a previsibilidade financeira aumenta e o patrimônio deixa de ser moeda de troca recorrente.

Mais do que funding, uma decisão estratégica

Depois de analisar essas dores, fica claro que o debate sobre FIAGRO raramente é técnico. Ele é estratégico, patrimonial e sucessório. Não se trata apenas de entender como o instrumento funciona, mas de avaliar quando ele faz sentido dentro do modelo de negócio, do ciclo financeiro, da governança familiar e da estratégia de longo prazo.

Em muitos casos, o agro não sofre por falta de acesso a crédito. Sofre por depender demais de uma única fonte — e dependência nunca foi boa estratégia, nem financeira, nem patrimonial.

O FIAGRO, quando bem estruturado, deixa de ser uma novidade financeira e passa a ser uma ferramenta de autonomia. Uma forma de acessar o mercado de capitais, alongar prazos, reduzir custo médio, organizar o patrimônio produtivo e sustentar crescimento com mais previsibilidade.

Mais do que criar um fundo, trata-se de construir arquitetura financeira e patrimonial.

O capital não deveria ser o limite do crescimento. A falta de estrutura é.

Por

  1. Victor Hugo Moreira
  2. Socio

  3. Salvador/BA
    Maceió/AL
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